Um youtuber e influenciador digital que tem recebido o apoio de Bolsonaro surgiu recentemente como protagonista dos ataques da mídia conservadora ao sínodo da Amazônia.

Bernardo Küster, católico tradicionalista e abertamente crítico ao Papa Francisco, é um jornalista brasileiro, dono de uma livraria em Campinas/SP, e que se valeu do sínodo da Amazônia como plataforma para expandir sua influência.

Não que ele precise de mais exposição. Küster, que tem pouco mais de trinta anos de idade, é um feroz defensor do presidente de viés nacionalista Jair Bolsonaro e possui um canal no YouTube com quase 800.000 inscritos.

Küster usa seu púlpito online para criticar o que considera ser a “presença comunista” e a corrupção financeira no sínodo da Amazônia, ideias que os críticos do Papa Francisco, na mídia católica dos EUA, acolheram com entusiasmo. Em Roma para acompanhar o sínodo, ele foi visto em coletivas de imprensa e concedeu uma entrevista de aproximadamente 40 minutos ao LifeSiteNews, uma agência de notícias católica de língua inglesa e que está entre as mais críticas ao Papa Francisco.

Nos primeiros dias do sínodo, Küster publicou um vídeo em que detalha supostas contribuições financeiras feitas pela Fundação Ford ao Vaticano para custear o sínodo da Amazônia. Ele descreveu as contribuições como sendo uma influência pró-aborto nas atividades do sínodo.

Küster e pessoas próximas a ele alegam ter evidências de que a Fundação Ford deu apoio financeiro para a Rede Eclesial Pan-Amazônica, a REPAM, grupo latino- americano que contribuiu para a organização do sínodo. Contudo, a REPAM nem sequer pertence ao Vaticano, que é o único financiador do sínodo.

A Fundação Ford, de fato, não é uma organização católica, mas apoia muitas iniciativas boas, e já fez doações expressivas para a agência de ajuda humanitária dos bispos dos EUA, a Catholic Relief Services.

Apesar disso, a agência de notícias americana National Catholic Register, pertencente ao grupo EWTN, e conhecida por suas reiteradas críticas ao papado de Francisco, fez das doações da Fundação Ford uma verdadeira obsessão. O jornalista correspondente do Register em Roma, Edward Pentin, questionou várias vezes as autoridades do Vaticano a respeito do suposto apoio financeiro da Fundação Ford. Pentin insistia nesse tema mesmo quando o Vaticano negava a existência desse financiamento.

No dia 23 de outubro, Küster publicou em vídeo a afirmação de que o sínodo da Amazônia era um mero espetáculo teatral e que sequer existia realmente. Segundo ele, nem mesmo estariam claros os nomes dos membros da equipe formada para elaborar o documento final do sínodo. O Vaticano, no entanto, fez a divulgação dos nomes das pessoas que estavam trabalhando no texto final.

“Quem está escrevendo este documento?”, pergunta Küster no vídeo e, sarcasticamente, acrescenta que poderiam muito bem ser “as múmias das catacumbas”, numa alusão ao Pacto das Catacumbas de 20 de outubro, que reafirmou a proximidade preferencial da Igreja para com os marginalizados.

Küster também acusou o sínodo de estar sob a influência de comunistas, uma manobra retórica frequentemente usada por Bolsonaro contra seus oponentes.

O LifeSiteNews, em 25 de outubro, perguntou a uma equipe do sínodo, durante coletiva de imprensa, se iriam comentar sobre uma “reunião com os deputados dos partidos socialistas e comunistas do Brasil”. Dom Evaristo Pascoal Spengler respondeu que a reunião com parlamentares brasileiros se deu por eles estarem envolvidos na defesa dos direitos humanos na região amazônica.

Küster, que descreve a si mesmo como ex-comunista e ex-ateu, afirma que chegou à sua fé católica por meio do grupo Tradição, Família e Propriedade (TFP), de Plinio Corrêa de Oliveira. O grupo é conhecido por ter apoiado a ditadura militar brasileira (1964-1985), por suas críticas ao Concílio Vaticano II e, mais recentemente, por sua oposição ao Papa Francisco.

Segundo Rodrigo Coppe Caldeira, professor de História da Igreja na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), “a maioria das pessoas considera a TFP uma seita” e hoje em dia ela não desempenha um papel influente na sociedade brasileira. Sua influência esteve no auge entre as décadas de 1960 e 1980. A TFP não possui o apoio da Igreja no Brasil, conforme explica Caldeira, embora seja próxima ao governo Bolsonaro.

A ligação entre Küster e a TFP não é de caráter meramente intelectual. Nos dias 11 e 12 de outubro, ele participou de um evento da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC). Nessa conferência, a TFP esteve presente e recebeu um dos maiores destaques. Vídeos mostram Küster proferindo uma palestra no evento do CPAC, que foi coorganizado por Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do Presidente da República.

Um grupo intimamente ligado à figura de Plínio Corrêa de Oliveira e à TFP são os Arautos do Evangelho. O Papa Francisco, recentemente, aprovou uma intervenção do Vaticano nos Arautos, mas eles a rejeitaram sob a alegação de que a intervenção seria ilícita.

A comentarista católica Dawn Eden Goldstein questiona as razões que levaram recentemente Edward Pentin, o correspondente em Roma para o Register, a publicar em seu blog pessoal um artigo de um membro da TFP conhecido por ideias anti-semitas e opinião favorável quanto à Inquisição católica. O artigo descreveu uma estatueta amazônica, chamada por alguns de “Nossa Senhora da Amazônia”, como um objeto de adoração pagã e foi também publicado pelo LifeSiteNews.

Goldstein, conhecida por suas investigações sobre a mídia católica conservadora, também questiona a respeito de uma possível relação financeira entre a EWTN e o grupo ultra-tradicionalista brasileiro.

Küster considera o guru intelectual dos Bolsonaros, Olavo de Carvalho, como seu mentor.

Morando nos EUA, Olavo é conhecido entre os brasileiros por suas visões de extrema direita e por defender a ditadura militar pela qual o Brasil passou entre 1964 e 1985. Após a eleição de Bolsonaro, ele se tornou uma espécie de assessor informal do presidente brasileiro. Olavo também é amigo íntimo de Steve Bannon, fundador do Breitbart News e ex-estrategista-chefe do presidente Donald Trump.

Küster é frequentemente recebido na chácara de Olavo nos EUA e o considera como seu professor pessoal. Os dois conversam regularmente sobre a Igreja e a política. A presença de Küster no sínodo é ainda mais intrigante, dado o incômodo de Bolsonaro em relação ao encontro dos bispos encerrado no último domingo. Antes mesmo do início do sínodo, o presidente brasileiro, que tem sido fortemente criticado por suas políticas relacionadas à floresta amazônica, enviou uma delegação ao Vaticano para fazer lobby junto aos organizadores do evento. O jornal O Estado de São Paulo publicou que o serviço secreto do governo brasileiro estaria monitorando os bispos escolhidos para participar do sínodo da Amazônia.

Após o encerramento das atividades do sínodo, foi divulgado seu documento final, que traz detalhes sobre as obrigações e responsabilidades da Igreja na região amazônica. O documento especificou as possibilidades de abertura do sacerdócio a diáconos casados, na região, e de ministérios oficiais para as mulheres na Igreja.

Foi ainda elaborada uma proposta para a criação de um fundo para a colaboração entre as diferentes conferências episcopais que atuam na região.

Na coletiva de imprensa ao final do encontro, os representantes da mídia conservadora continuaram insistindo nas mesmas questões que vinham levantando ao longo de todo o sínodo. Em resposta, o Vaticano reiterou o chamado da Igreja à conversão e à necessidade pastoral de atender e ouvir o povo da Amazônia.

 

 


Daniele Palmer é jornalista freelancer. Estudou história em Londres e atualmente cursa seu doutorado, em que estuda o pensamento político francês.

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